A Chuva e o Guarda-Chuva
A chuva fina da tarde caía sobre São Paulo, criando uma melancolia que se espalhava pela minha pequena cobertura. Ali, cercada por estantes repletas de livros e com meu gato Leite aninhado no sofá, eu tentava encontrar inspiração para meu próximo projeto de tradução. De repente, meu celular vibrou na mesa de centro, anunciando a chegada de um e-mail. Era da editora: eu havia sido escolhida para traduzir o novo livro de André Dubois, o escritor francês que havia conquistado o mundo com seu best-seller.
Meu coração acelerou ao ler o nome dele. André Dubois. Quantos anos haviam se passado desde nosso breve encontro em Paris? Eu estava lá fazendo um intercâmbio, sonhando em me tornar escritora, enquanto ele era apenas um aspirante a escritor tentando encontrar seu lugar no mundo literário. Nós nos conhecemos em uma pequena livraria no Quartier Latin, onde eu estava procurando livros em português para matar a saudade de casa.
Eu me lembro de ter visto André folheando um livro de Jorge Amado, e não pude resistir a comentar sobre minha admiração pelo autor brasileiro. Ele sorriu, e aquele sorriso me desarmou completamente. Conversamos por horas sobre literatura, arte e sonhos. Foi um daqueles encontros que parecem ter saído de um romance, mas que acabam se perdendo no tempo.
Agora, anos depois, eu estava prestes a traduzir o livro dele. Será que ele se lembraria de mim? A ideia de que nosso breve encontro em Paris pudesse ter sido apenas mais um dia na vida dele me assustava. Eu havia guardado aquela lembrança como um tesouro, algo que me inspirava a continuar seguindo meus sonhos, mesmo quando tudo parecia difícil demais.
Levantei do sofá e fui até a janela, observando a chuva cair sobre a cidade. Leite se aproximou e esfregou sua cabeça em minha perna, como se sentisse minha inquietação. Sorri e o peguei no colo, acariciando seu pelo macio. "O que você acha, Leite? Será que ele ainda se lembra da garota brasileira que encontrou em uma livraria em Paris?"
Leite ronronou, e eu suspirei. A chuva continuava a cair, e com ela, minhas lembranças de André voltavam à minha mente. Eu me perguntava se ele ainda era o mesmo homem que havia conhecido, cheio de sonhos e paixão pela escrita. Ou se o sucesso o havia transformado em alguém diferente.
Voltei para o sofá e abri meu notebook, começando a pesquisar sobre o livro que eu traduziria. Era uma história de amor e perda, exatamente o tipo de livro que eu adorava ler e traduzir. Enquanto lia o resumo, não pude deixar de pensar que talvez, de alguma forma, aquele livro fosse um reflexo de nossa história, mesmo que breve.
A tarde foi passando, e a chuva não dava trégua. O som constante das gotas batendo no vidro da janela criava uma atmosfera de contemplação. Eu estava ansiosa para começar a tradução, mas também temerosa pelo que poderia acontecer quando eu encontrasse André novamente.
Leite pulou no sofá e se aconchegou ao meu lado, como se quisesse me confortar. Sorri e o acariciei, agradecendo silenciosamente por sua presença constante. "Vamos ver no que isso vai dar, né, Leite?"
A chuva continuava a cair, e com ela, minhas esperanças e temores dançavam em minha mente. Será que André se lembraria de mim? Será que nossa conexão de anos atrás ainda existia? Eu não tinha respostas, mas sabia que logo descobriria. Por enquanto, tudo o que eu podia fazer era mergulhar na tradução e esperar pelo reencontro que tanto temia quanto desejava.
Os dias seguintes foram uma mistura de ansiedade e expectativa. Eu havia mergulhado de cabeça na tradução do livro de André, tentando me concentrar nas palavras e ignorar o turbilhão de emoções que tomava conta de mim. Leite, fiel companheiro, permanecia ao meu lado, como se entendesse minha agitação interna.
Até que chegou o dia do nosso primeiro encontro para discutir a tradução. Eu escolhi um café no centro de São Paulo, um lugar que sempre me pareceu acolhedor e propício para conversas profundas. Cheguei um pouco mais cedo, tentando me acalmar com uma xícara de café quente. Meus olhos não paravam de olhar para a porta, esperando a chegada de André.
E então, ele entrou. Meu coração disparou ao vê-lo. André havia mudado, mas ainda tinha aquele charme que me desarmara anos atrás. Seu sotaque carregado me fez sorrir, trazendo de volta lembranças de Paris.
"Você deve ser Lúcia, a tradutora", ele disse, estendendo a mão para me cumprimentar.
Apertei sua mão, sentindo um frio na barriga. "Sim, prazer em conhecê-lo, André."
Ele se sentou à minha frente, e por um momento, ficamos em silêncio, apenas nos olhando. Eu tentava desesperadamente encontrar algo para dizer, mas as palavras pareciam ter fugido de minha mente.
"Então, você já começou a traduzir o livro?", ele perguntou, quebrando o silêncio.
"Sim, estou adorando. É uma história linda."
André sorriu, e aquele sorriso me fez voltar no tempo. "Fico feliz em ouvir isso. Sabe, esse livro tem um significado especial para mim."
"É mesmo?", perguntei, curiosa.
"Sim. Ele foi inspirado em alguém que conheci anos atrás, em Paris. Uma garota brasileira que amava literatura tanto quanto eu."
Meu coração quase parou. Será que ele estava falando de mim? Tentei manter a calma, mas sentia meu rosto ficando vermelho.
"Eu nunca me esqueci dela", ele continuou. "Ela foi uma inspiração para mim, mesmo que nosso encontro tenha sido breve."
Respirei fundo. "André, eu..."
"Você é ela, não é?", ele interrompeu, olhando fundo em meus olhos. "Lúcia, a garota da livraria."
Engoli em seco, sem palavras. André se lembrava de mim. Todos aqueles anos imaginando se nosso encontro havia sido significativo para ele, e agora, ali estava a resposta.
"Sim, sou eu", confirmei, com um sorriso tímido. "Eu também nunca me esqueci daquele dia."
A partir daquele momento, a conversa fluiu naturalmente. Falamos sobre o livro, sobre nossas vidas, sobre como os anos haviam passado. André contou sobre sua mudança para o Brasil, sobre como havia se apaixonado pela cultura e pela língua portuguesa. Eu falei sobre minha carreira como tradutora, sobre meus sonhos de escrever meus próprios livros.
"Você deveria tentar", ele me encorajou. "Você tem um dom para as palavras. Consigo ver isso na forma como você fala sobre a tradução."
Senti meu rosto corar de novo. "Obrigada, André. Quem sabe um dia eu consiga."
Nos encontramos regularmente depois daquele dia, sempre em cafés ou na minha cobertura, com Leite como testemunha silenciosa de nossas conversas. A cada encontro, a atração entre nós parecia crescer, como se o tempo não tivesse nos separado.
André era charmoso, inteligente e incrivelmente talentoso. Eu me pegava sonhando com ele, imaginando como seria se nossos caminhos tivessem se cruzado de novo antes. Mas, ao mesmo tempo, um medo crescia dentro de mim. O medo de me envolver com alguém que poderia ir embora novamente, como havia acontecido em Paris.
"Você já pensou em voltar para a França?", perguntei certa vez, tentando parecer casual.
André balançou a cabeça. "O Brasil é minha casa agora. Não tenho planos de voltar tão cedo."
Suas palavras me confortaram, mas o medo ainda estava lá, espreitando nos cantos da minha mente. Eu não queria me machucar novamente, não queria sofrer com a distância e a saudade.
Mas, ao mesmo tempo, não conseguia ignorar o que sentia por André. Ele era especial, único, e a ideia de abrir mão disso tudo por medo era assustadora.
Continuar, sempre.
A chuva voltou a castigar a cidade naquela noite, criando uma sinfonia constante que parecia engolir todos os outros sons. André e eu estávamos em minha cobertura, rodeados por papéis e livros, trabalhando na tradução. O prazo se aproximava, e nós decidimos fazer uma maratona de trabalho para finalizar os últimos capítulos.
Leite, como sempre, estava enroscado no sofá, observando nossa movimentação com olhos curiosos. De vez em quando, ele se esticava e se aproximava de um de nós, pedindo carinho e atenção.
"Este trecho está me dando um pouco de trabalho", confessei, apontando para uma passagem específica no manuscrito. "Não sei se estou capturando a essência das palavras em português."
André se aproximou, lendo por cima do meu ombro. Senti seu hálito quente na minha nuca, e um arrepio percorreu minha espinha. "Hum, entendo o que você quer dizer. Talvez possamos encontrar uma maneira de transmitir a mesma emoção, mas com outras palavras."
Trabalhamos juntos naquela passagem, discutindo opções e possibilidades. Nossa proximidade era elétrica, e eu podia sentir a química crescendo entre nós a cada minuto que passava. Quando finalmente encontramos a solução perfeita, comemoramos com sorrisos e olhares cúmplices.
"Você é incrível, Lúcia", André elogiou, seus olhos verdes brilhando de admiração. "Eu não conseguiria fazer isso sem você."
Senti meu rosto corar com o elogio. "Obrigada, André. É um prazer trabalhar com você."
A chuva continuava a cair lá fora, e o som das gotas batendo no vidraça criava uma atmosfera íntima e aconchegante. Nós nos encontrávamos tão perto, nossos corpos quase se tocando, que era difícil ignorar a tensão que pairava no ar.