A Chuva e o Guarda-Chuva
"Você já pensou em escrever seu próprio livro?", André perguntou de repente, quebrando o silêncio.
Engoli em seco, surpresa com a pergunta. "Eu... eu pensei, sim. Mas sempre achei que não era boa o suficiente."
"Isso é bobagem", ele rebateu, com convicção. "Você tem um talento nato para as palavras. Seus comentários e sugestões durante a tradução provam isso."
Senti um calor se espalhar pelo meu peito diante de suas palavras. "Você realmente acha?"
"Claro que acho", ele sorriu, seus olhos fixos nos meus. "E eu adoraria ler algo seu um dia."
Nossos olhares se encontraram e se prenderam, e o mundo pareceu parar ao nosso redor. A chuva, o livro, tudo desapareceu, e só restamos nós dois, perdidos na intensidade daquele momento.
André foi o primeiro a se mover, inclinando-se lentamente em direção a mim. Meu coração disparou, e eu mal podia respirar. Quando seus lábios finalmente encontraram os meus, foi como se o tempo tivesse parado.
O beijo foi suave e doce, carregado de anos de saudade e desejo reprimido. Eu correspondi ao beijo, envolvendo meus braços em seu pescoço e puxando-o para mais perto. Nossos corpos se colaram, e eu podia sentir o calor dele atravessando minhas roupas.
Quando finalmente nos separamos, estávamos sem ar, nossos olhos arregalados com a intensidade do que havia acontecido. Leite, percebendo a comoção, pulou do sofá e saiu da sala, como se entendesse que precisávamos de privacidade.
"Eu... eu sinto muito", André gaguejou, seus olhos cheios de incerteza. "Eu não quis forçar nada."
"Não, não, está tudo bem", eu o tranquilizei, ainda tentando recuperar o fôlego. "Eu também queria isso."
Mas, apesar das minhas palavras, o medo começou a se infiltrar em meu coração. O medo de me envolver com alguém que poderia ir embora novamente, como havia acontecido em Paris. O medo de sofrer, de me machucar, de ver meus sonhos desmoronarem.
"Eu nunca quis te magoar, Lúcia", André sussurrou, como se lesse meus pensamentos. "Eu entendo seu medo, mas prometo que não vou te abandonar de novo."
Eu queria acreditar nele, queria mergulhar de cabeça nessa relação e deixar o medo para trás. Mas a insegurança era maior, e eu não conseguia silenciar a voz dentro de mim que me dizia para ter cuidado.
"Nós deveríamos voltar ao trabalho", eu disse, tentando desviar o assunto. "O prazo está se aproximando."
André assentiu, mas eu podia ver a decepção em seus olhos. Ele sabia que eu estava fugindo, que estava me escondendo atrás do trabalho para evitar encarar meus sentimentos.
Voltamos à tradução, mas a tensão entre nós era palpável. Cada olhar, cada toque acidental, cada palavra trocada era carregada de emoção. Eu lutava contra meus sentimentos, tentando manter o controle, mas era difícil resistir ao magnetismo que nos atraía.
A chuva continuava a cair lá fora, e a noite avançava. Nós trabalhamos em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos. Eu não conseguia parar de pensar no beijo, no que ele significava, no que poderia acontecer entre nós.
Será que eu estava pronta para abrir meu coração novamente? Será que valia a pena correr o risco de me magoar, de sofrer com a possibilidade de André ir embora?
Eu não tinha respostas, mas sabia que teria que encarar essas perguntas em algum momento. Até lá, eu tentaria me concentrar na tradução e no tempo que ainda tínhamos juntos.
A madrugada chegou, e nós finalmente terminamos o trabalho. O livro estava traduzido, pronto para ser enviado para a editora. Mas, apesar da sensação de realização, eu sentia um aperto no peito, uma mistura de medo e esperança que eu não conseguia explicar.
André se despediu com um beijo na testa, prometendo me ligar no dia seguinte. Fiquei parada na porta, observando-o desaparecer na chuva, me perguntando se algum dia eu teria coragem de enfrentar meus medos e entregar meu coração a ele.
Leite se enroscou em meus pés, como se sentisse minha agitação interna. Eu me abaixei para acariciá-lo, buscando conforto em sua presença constante. "O que vou fazer, Leite?", sussurrei, sentindo as lágrimas se formarem em meus olhos. "Será que eu vou conseguir superar esse medo?"
Mas Leite, como sempre, não tinha respostas. Ele apenas ronronou e se aninhou em meus braços, me oferecendo o único consolo que podia dar. Eu sabia que teria que encontrar as respostas dentro de mim mesma, e que isso demandaria tempo e coragem.
Até lá, eu seguiria em frente, um dia de cada vez, tentando navegar as águas turbulentas dos meus sentimentos e esperando que, no fim, o amor vencesse o medo.
Continuar, sempre.
Os dias seguintes foram uma montanha-russa de emoções. André e eu nos encontramos várias vezes, sempre com a desculpa de revisar a tradução ou discutir detalhes do livro. Mas, no fundo, sabíamos que era apenas uma maneira de ficarmos juntos, de explorarmos a conexão que havia renascido entre nós.
Uma noite, depois de mais um dia de trabalho intenso, André me convidou para jantar em seu apartamento. Aceitei, com o coração acelerado e as mãos suadas de nervosismo. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, teríamos que enfrentar os sentimentos que estavam crescendo entre nós.
O jantar foi perfeito, com velas, vinho e uma música suave tocando ao fundo. Conversamos sobre tudo e sobre nada, rimos, compartilhamos histórias e sonhos. E, quando a noite chegou ao fim, não consegui resistir ao desejo de ficar nos braços de André.
Fizemos amor naquela noite, e foi como se o mundo tivesse desaparecido ao nosso redor. Cada toque, cada beijo, cada suspiro estava carregado de emoção e paixão. Senti como se tivesse encontrado um pedaço de mim que havia se perdido anos atrás, em uma livraria em Paris.
Na manhã seguinte, acordei com os raios de sol entrando pela janela e o som do celular de André vibrando na mesa de cabeceira. Ele atendeu, ainda sonolento, e eu observei seu rosto se transformar conforme ouvia a pessoa do outro lado da linha.
Quando desligou, ele parecia diferente, distante. "Lúcia...", ele começou, hesitante. "Era a minha agente. Eu... eu recebi uma proposta para escrever um livro nos Estados Unidos. É uma oportunidade incrível, e eu preciso ir."
Senti meu coração afundar no peito. Era como se todas as minhas inseguranças e medos tivessem se materializado naquelas palavras. "Você vai embora?", perguntei, com a voz trêmula.
André assentiu, sem conseguir me olhar nos olhos. "Sim, eu preciso ir. Mas não quero que isso afete o que temos, Lúcia. Eu... eu quero tentar fazer isso dar certo, mesmo com a distância."
Mas, enquanto ele falava, eu já podia sentir as paredes se fechando ao meu redor. O medo de ser abandonada novamente, de sofrer com a saudade e a incerteza, era mais forte do que qualquer promessa de amor à distância.
"Não, André", eu disse, com a voz mais firme do que realmente me sentia. "Eu não posso fazer isso. Não quero passar por isso de novo, não quero me machucar."
André tentou argumentar, tentou me convencer de que podíamos superar a distância, mas eu já havia tomado minha decisão. Com lágrimas nos olhos, pedi que ele fosse embora, que não tornasse as coisas ainda mais difíceis do que já eram.
Ele concordou, relutante, e começou a juntar suas coisas. Antes de ir embora, ele me entregou um exemplar de seu livro, com uma dedicatória escrita na primeira página. "Leia isso quando estiver pronta", ele pediu, com a voz embargada.
Assenti, sem conseguir dizer mais nada. André se foi, e eu fiquei sozinha em meu apartamento, com Leite como única testemunha da minha dor.
Os dias se passaram, e a chuva continuava a cair sobre São Paulo, como se o céu estivesse chorando junto comigo. Eu evitava ler a dedicatória, com medo das emoções que ela poderia despertar em mim.
Até que, uma tarde, Leite pulou no meu colo e começou a ronronar, como se quisesse me consolar. Peguei o livro de André, abri na primeira página e comecei a ler:
"Para Lúcia, a mulher que me inspirou a escrever e a amar. Você foi a musa por trás de cada palavra, de cada história. Onde quer que a vida nos leve, saiba que você sempre terá um lugar especial no meu coração. Obrigado por tudo."
As lágrimas escorreram pelo meu rosto, e eu abracei o livro junto ao peito, como se quisesse guardar aquelas palavras dentro de mim. Leite esfregou sua cabeça em minha mão, como se entendesse minha dor e quisesse me confortar.
Fiquei ali, sentada no sofá, com o livro de André em uma mão e Leite aninhado em meu colo, ouvindo o som da chuva que caía lá fora. Era o fim de uma história, mas também o começo de uma nova jornada, de um novo capítulo em minha vida.
E, enquanto a chuva continuava a cair, eu sabia que, apesar de tudo, aquele encontro em Paris e a paixão que havia renascido em São Paulo seriam para sempre uma parte de mim, um lembrete de que o amor, mesmo com todos os seus medos e incertezas, sempre valeria a pena.
Continuar, sempre.